sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O lago


Eric olhava para a imensidão do lago com uma concentração imperturbável. Tinha uma ligação profunda com a água. Nunca soube dizer o motivo dessa fascinação que o fazia passar tardes e noites a beira do lago. Apesar de estar contemplando as águas como de costume, aquela noite não era como as outras. A lua brilhava de uma maneira especial e sua luz era refletida pelo espelho cristalino que parecia exercer um controle narcisístico sob Eric. Não era a lua ou a imagem de si mesmo que o atraía, mas sim um sonho.
 Desde muito pequeno sonhava com aquele lago. As mesmas cenas se repetiam todas as noites. O luar, as águas, as ondas e a presença. Presença aquela que seduzia os olhos de Eric. Era como um encantamento antigo, uma magia da qual não conseguia escapar. Noite após noite, enredava-se nas teias de Morfeu. Tudo parecia tão real que ao acordar ainda podia sentir a força daquele ser. O sonho sempre terminava com alguém surgindo do lago. Eric não conseguia ver seu rosto, porém parecia conhecê-lo mais do que a si mesmo.
                Aquela noite seria diferente. Eric resolveu que não iria esperar o sono para sentir aquela magia. Com os olhos ainda fixos no lago, disse:
                — Eu sei que está aí. Você pode me ouvir?
De repente, algo pulou do lago. Parecia ser um golfinho, mas estava tão longe que Eric não poderia saber. A luz do luar ficou mais forte. A magia se fazia presente. Perguntava-se, incessantemente, se o sonho havia se apoderado da realidade. Sentia o mesmo encantamento que só o acometia quando fechava os olhos.
A água começou a brilhar intensamente. Algo parecia descansar em cima de uma pedra. Eric apertava os olhos tentando descobrir quem ou o que estava sentado ali. Via uma cauda, uma barriga, um peitoral forte, um belo rosto humano com orelhas extremamente pontudas. Não conseguia não olhar para aquela criatura maravilhosa. Será que sua mente estava pregando-lhe uma peça?
Aproximou-se daquele ser místico e disse:
— Você fala minha língua?
— Sim. — Com uma voz envolvente, a criatura respondeu.
—O que é você?
— Um tritão. Na sua língua, meu nome é John.
— É você que sempre me visita durante as noites?
— Sim.
Eric não sabia o que dizer. Tinha tantas perguntas, entretanto, não conseguia verbalizá-las. Sentia-se tão confuso. O silêncio só aumentava. Então, algumas palavras irromperam da sua boca:
— Falante, você, não? Por que você aparece nos meus sonhos?
— Não é obvio? A sua magia me atrai. Nunca pude sentir um homem com tanta força mágica antes. Sempre me perguntei se isso seria possível. Como um mero mortal pôde me acordar?
— Magia? Acordar você? Acho que não estou entendendo.
— Sim, magia. Ela foi perdida ao longo do tempo, e você foi o único que pode me chamar outra vez para esse mundo. Eu guardo os portões do reino de Aelfus. Nunca um humano foi capaz de trazer-me até aqui. Enfim, o que deseja de mim?
— Não sei. — respondeu dando-se conta que era atraído, mas não sabia por que nem para que.
— Você exerce uma atração sobre mim. Não posso fugir a menos que assim desejar.
Então, o tritão mergulhou no lago e depois de alguns minutos começou a emergir, pouco a pouco. O humano via sua cabeça, seus olhos, sua boca, seu pescoço, seu peito, seus braços, sua barriga, suas pernas. Ficando ainda mais perplexo, percebeu que John não tinha mais uma cauda.
— O que aconteceu com sua cauda?
— Achei que me atrapalharia fora da água. Não? — sorriu de uma forma quase maldosa. — Você não me prefere assim? Ficamos mais parecidos.
— Realmente, iria atrapalhar.
O tritão se aproximou lentamente e beijou Eric             que, confuso, retribuiu. A água parecia tomar conta de seu corpo. A energia que fluía deles era imensurável, como se o mar houvesse se apoderado dos dois. Os movimentos se assimilavam à ressaca, eram fortes, devastadores.  Eric nunca havia sentido tanto prazer. As caricias começaram a aumentar e quando percebeu estava sem suas roupas. Seu corpo havia sido entregue ao ser mítico que acabara de conhecer. Deleitava-se com a excitação que o outro lhe proporcionava. Tudo era tão intenso, tão mágico, tão surreal. O tritão media suas forças para que o corpo frágil do humano não sofresse. A união entre as duas espécies nunca havia acontecido e, por ser muito mais forte, tinha medo de acabar com a vida daquele que o havia feito despertar. Os movimentos se tornavam cada vez mais ritmados e frenéticos, até que, por fim, houve uma explosão de prazer.
Eric acordou sozinho na beira do lago. Já não era mais o mesmo. Sentia-se mareado, parecia entender as águas. Seu corpo balançava como se o vento fizesse ondas no seu sangue. A terra lhe era estranha. Guiado pela maré, chegou à porta de sua casa. Deitou na cama e começou a pensar em tudo o que havia experimentado. Olhou para a caixinha de comprimidos em cima do criado-mudo. Tomou um. O médico disse que eles fariam parte da sua rotina. Aqueles remédios o tranqüilizariam, já conhecia o efeito. Sua pele começou a ganhar vida, balançava, escorria, fluía. Era como se houvesse uma fusão entre seu corpo e o poder das águas.
Alguém abriu a porta do seu quarto, era um sorriso. Seus olhos já não conseguiam distinguir o que estava na terra. Afastando-se da porta, pegou um copo, encheu-o de água e colocou nos olhos. Dessa maneira, conseguiu ver a visita. Era um rosto conhecido. Aos poucos foi se lembrando que passava por seu quarto todas as noites. Com a desculpa de levar água e seus comprimidos, Junior havia entrado. O sorriso daquele homem deixava Eric mal. Tinha vontade de fugir dali, mas não tinha forças. Como de costume, sentiu aquelas mãos pesadas sobre seu corpo. De repente, sentiu uma força brotando do peito. As águas do seu corpo o guiavam. Parecia estar possuído por uma magia mais forte que ele mesmo. Não queria se render e se entregar a ele, contudo não conseguia resistir. A boca de Junior percorria todo seu corpo, sentia-se subjugado. A maré o levou ao êxtase mais uma vez.
Quando acordou, estava deitado no chão da sala. Junior estava ao seu lado, sem roupas e sem vida. O piso branco estava pintado com seu sangue. Eric não conseguia se lembrar de nada. Supôs que um humano nunca mais poderia tocá-lo e se alegrou após constar esse novo fato, entretanto, o sangue quente em suas mãos o deixou desesperado. Correu para o quarto e tomou outro de seus comprimidos. Decidiu ir falar com o tritão, ele saberia o que havia acontecido. Caminhou lentamente até o lago e disse:
— John, um homem acabou de morrer quando... —sua voz parecia falhar. Antes de conseguir recomeçar a frase a magia começou a fluir pelo lago. Encantamentos podiam ser ouvidos. Então, o tritão apareceu. Seu olhar era penetrante como um feitiço.  Sua voz fez se presente:
— Tolo homem. Achou mesmo que depois de receber minha energia poderia se envolver com alguém desprovido de uma essência mágica? Você pertence ao lago, ao mundo de Aelfus, a mim.  A essência das águas está dentro do seu corpo.
— Siga-me até meu reino e terá a liberdade que tanto deseja.  
Eric hesitava. Não conseguia ir de encontro ao seu destino. Ao perceber o medo nos olhos do humano, John continuou:        
— Confie em mim. Você e eu partilhamos da mesma magia ancestral, dessa maneira poderá respirar embaixo d’água. Não tenha medo.
Eric caminhou na direção das águas. Seu rosto estava cada vez mais branco, seu cérebro parecia entrar em transe. A correnteza era muito forte. O humano lutava contra ela, mas as pastilhas que havia tomado o deixaram mais lento, susceptível aos caprichos do lago. Seu olhar buscava sem sucesso o ser místico que o havia seduzido. Eric ouviu uma gargalhada perversa. O rosto do tritão apareceu na sua frente, seus dentes brilhavam em um sorriso  maldoso. Um grito, abafado pela corrente, foi dado pelo humano. Havia visto um grande portão prateado com runas élficas escritas em dourado. As cores pareciam ganhar formas. Imagens distorcidas começaram a se materializar: bolos, patos, médicos, perfumes, óculos, copos, faca, garganta, Junior, peixes, comprimidos, branco, camisa, colchão, enfermeiros, lago, seringas, risadas, escuridão.

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