domingo, 29 de maio de 2011

A escola maneirista


Ninguém se torna gay, já se nasce assim. Muitos dizem que o psicológico interfere na nossa orientação sexual, outros afirmam que a criança é ensinada a ser heterossexual, sinto-me no direito de discordar. Na minha casa o machismo e a heterossexualidade sempre foram lecionados. Tive um bom professor que me iniciou na arte de pensar que a mulher desempenha um papel submisso, resignado e, às vezes, escravo de servir e proporcionar prazeres ao homem. 

Essa doutrina acarreta uma série de preconceitos relativos à orientação sexual. Se a mulher desempenha um papel submisso, logo o varão que vai para a cama com outro varão equipara-se a mulher. Dessa maneira, ao colocar-se em uma situação de similaridade com a fêmea, faz com que haja uma falha na estrutura de poder outorgada pela dominação machista na nossa sociedade. Portanto, esse macho que deveria ser dominante, bruto, másculo, ativo, entretanto possui algum tipo de “defeito” e não consegue ser fiel suas supostas características inerentes ao sexo, é visto como um fraco desprezível pelos outros machos que não admitem essa distorção da estrutura de poder do machismo. 

Antes de continuar, gostaria de esclarecer que não concordo que características masculinas ou femininas estão vinculadas biologicamente ao sexo, mas sim à forma com que são construídas as identidades sociais atribuídas a cada gênero. Ou seja, por exemplo, a docilidade feminina não passa de uma convenção estabelecida socialmente, da mesma forma que a virilidade não é dada aos homens por serem do sexo masculino, essa qualidade lhes é atribuída por convenções sociais.

 Voltando ao meu templo edificador de conhecimentos, aprendi também que o homem precisa conquistar muitas mulheres para demonstrar sua masculinidade. Para que sua insegurança seja apagada, alguns tipos do modelo “Don Juan moderno” tem a nítida necessidade de “comer” todas, de seduzi-las, de abandoná-las, pois uma mulher que cede aos prazeres da carne é promiscua e não merece que um homem a despose. Num mundo idealmente machista, todas as fêmeas consideradas como “devassas” deveriam estar reclusas em um lugar no qual serviriam aos homens de maneira ainda mais humilhante e objetificada: bordel. Nesses guetos as mulheres que não são puras nem aptas para o casamento divertem aos machos vendendo seus corpos e suas mentes, expostas a todo tipo de sorte, violência, degradação.
Tudo o que é “estranho” aos comportamentos impostos pela sociedade tem que se manter em guetos, afastar-se, marginalizar-se. Da mesma maneira que as mulheres que não cumprem seu papel de submissas, puras, castas na nossa sociedade machista são reclusas a marginalidade, o homem que se atreve a exercer o papel convencionalmente feminino é marginalizado, prejulgado, subjugado.

 Dessa falha de poder nasci. Por muito tempo escondi de mim mesmo todos os sentimentos que tive por pessoas do mesmo sexo. Não saberia explicar o motivo real de ter escolhido, ainda que subconsciente, ocultar minha orientação de todos, inclusive de mim mesmo. O entorno machista, o medo da não aceitação, os falsos ensinamentos religiosos, que até então não eram sequer questionados, vem a minha mente como possíveis causas do meu obscurantismo. Toda essa imersão na ignorância durou muitos anos. Até que em um belo dia me dei conta que realmente gostava de homens. Já estava na universidade. Lembro-me que decidi contar minha novidade para uma amiga, que me olhou com ternura, e disse: “Lindo, eu já sabia! Acho que você era o único que não.” Apos esse episódio resolvi analisar minha história de negação dos fatos. Realmente, nasci gay. Desde criança me interessava por garotos, mas o medo de quebrar essa estrutura de poder machista fez com que apagasse, reprimisse, subjugasse meu verdadeiro eu. 

Hoje com minha relativa experiência, vivencia julgo-me capaz de sentir vergonha por delimitar-me e nojo por essa sociedade machista ridícula em que estou inserido. Uma sociedade na qual uma mulher é espancada a cada 15 minutos por seus “companheiros”, vários homossexuais são espancados por grupos neonazistas. Orgulho-me por não ter sido um bom aluno da escola do machismo e por dedicar-me muito à escola grega.  Depois de 23 anos vividos aprendi que sou completo por não esconder quem sou e não ter a vergonha de ser feliz.