terça-feira, 7 de agosto de 2012

Te echo de menos

"Lo llamaba vida antes de conocerte, 
era mentira. 
Creí que podía vivir sin tí, 
era mentira.
Creí que te había olvidado,
era mentira porqué daría mi vida solo por escucharte reir a mi lado,
aunque fuese mentira.
Puedo vivir con todas esas mentiras,
pero nunca sin tu perdón. "

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O lago


Eric olhava para a imensidão do lago com uma concentração imperturbável. Tinha uma ligação profunda com a água. Nunca soube dizer o motivo dessa fascinação que o fazia passar tardes e noites a beira do lago. Apesar de estar contemplando as águas como de costume, aquela noite não era como as outras. A lua brilhava de uma maneira especial e sua luz era refletida pelo espelho cristalino que parecia exercer um controle narcisístico sob Eric. Não era a lua ou a imagem de si mesmo que o atraía, mas sim um sonho.
 Desde muito pequeno sonhava com aquele lago. As mesmas cenas se repetiam todas as noites. O luar, as águas, as ondas e a presença. Presença aquela que seduzia os olhos de Eric. Era como um encantamento antigo, uma magia da qual não conseguia escapar. Noite após noite, enredava-se nas teias de Morfeu. Tudo parecia tão real que ao acordar ainda podia sentir a força daquele ser. O sonho sempre terminava com alguém surgindo do lago. Eric não conseguia ver seu rosto, porém parecia conhecê-lo mais do que a si mesmo.
                Aquela noite seria diferente. Eric resolveu que não iria esperar o sono para sentir aquela magia. Com os olhos ainda fixos no lago, disse:
                — Eu sei que está aí. Você pode me ouvir?
De repente, algo pulou do lago. Parecia ser um golfinho, mas estava tão longe que Eric não poderia saber. A luz do luar ficou mais forte. A magia se fazia presente. Perguntava-se, incessantemente, se o sonho havia se apoderado da realidade. Sentia o mesmo encantamento que só o acometia quando fechava os olhos.
A água começou a brilhar intensamente. Algo parecia descansar em cima de uma pedra. Eric apertava os olhos tentando descobrir quem ou o que estava sentado ali. Via uma cauda, uma barriga, um peitoral forte, um belo rosto humano com orelhas extremamente pontudas. Não conseguia não olhar para aquela criatura maravilhosa. Será que sua mente estava pregando-lhe uma peça?
Aproximou-se daquele ser místico e disse:
— Você fala minha língua?
— Sim. — Com uma voz envolvente, a criatura respondeu.
—O que é você?
— Um tritão. Na sua língua, meu nome é John.
— É você que sempre me visita durante as noites?
— Sim.
Eric não sabia o que dizer. Tinha tantas perguntas, entretanto, não conseguia verbalizá-las. Sentia-se tão confuso. O silêncio só aumentava. Então, algumas palavras irromperam da sua boca:
— Falante, você, não? Por que você aparece nos meus sonhos?
— Não é obvio? A sua magia me atrai. Nunca pude sentir um homem com tanta força mágica antes. Sempre me perguntei se isso seria possível. Como um mero mortal pôde me acordar?
— Magia? Acordar você? Acho que não estou entendendo.
— Sim, magia. Ela foi perdida ao longo do tempo, e você foi o único que pode me chamar outra vez para esse mundo. Eu guardo os portões do reino de Aelfus. Nunca um humano foi capaz de trazer-me até aqui. Enfim, o que deseja de mim?
— Não sei. — respondeu dando-se conta que era atraído, mas não sabia por que nem para que.
— Você exerce uma atração sobre mim. Não posso fugir a menos que assim desejar.
Então, o tritão mergulhou no lago e depois de alguns minutos começou a emergir, pouco a pouco. O humano via sua cabeça, seus olhos, sua boca, seu pescoço, seu peito, seus braços, sua barriga, suas pernas. Ficando ainda mais perplexo, percebeu que John não tinha mais uma cauda.
— O que aconteceu com sua cauda?
— Achei que me atrapalharia fora da água. Não? — sorriu de uma forma quase maldosa. — Você não me prefere assim? Ficamos mais parecidos.
— Realmente, iria atrapalhar.
O tritão se aproximou lentamente e beijou Eric             que, confuso, retribuiu. A água parecia tomar conta de seu corpo. A energia que fluía deles era imensurável, como se o mar houvesse se apoderado dos dois. Os movimentos se assimilavam à ressaca, eram fortes, devastadores.  Eric nunca havia sentido tanto prazer. As caricias começaram a aumentar e quando percebeu estava sem suas roupas. Seu corpo havia sido entregue ao ser mítico que acabara de conhecer. Deleitava-se com a excitação que o outro lhe proporcionava. Tudo era tão intenso, tão mágico, tão surreal. O tritão media suas forças para que o corpo frágil do humano não sofresse. A união entre as duas espécies nunca havia acontecido e, por ser muito mais forte, tinha medo de acabar com a vida daquele que o havia feito despertar. Os movimentos se tornavam cada vez mais ritmados e frenéticos, até que, por fim, houve uma explosão de prazer.
Eric acordou sozinho na beira do lago. Já não era mais o mesmo. Sentia-se mareado, parecia entender as águas. Seu corpo balançava como se o vento fizesse ondas no seu sangue. A terra lhe era estranha. Guiado pela maré, chegou à porta de sua casa. Deitou na cama e começou a pensar em tudo o que havia experimentado. Olhou para a caixinha de comprimidos em cima do criado-mudo. Tomou um. O médico disse que eles fariam parte da sua rotina. Aqueles remédios o tranqüilizariam, já conhecia o efeito. Sua pele começou a ganhar vida, balançava, escorria, fluía. Era como se houvesse uma fusão entre seu corpo e o poder das águas.
Alguém abriu a porta do seu quarto, era um sorriso. Seus olhos já não conseguiam distinguir o que estava na terra. Afastando-se da porta, pegou um copo, encheu-o de água e colocou nos olhos. Dessa maneira, conseguiu ver a visita. Era um rosto conhecido. Aos poucos foi se lembrando que passava por seu quarto todas as noites. Com a desculpa de levar água e seus comprimidos, Junior havia entrado. O sorriso daquele homem deixava Eric mal. Tinha vontade de fugir dali, mas não tinha forças. Como de costume, sentiu aquelas mãos pesadas sobre seu corpo. De repente, sentiu uma força brotando do peito. As águas do seu corpo o guiavam. Parecia estar possuído por uma magia mais forte que ele mesmo. Não queria se render e se entregar a ele, contudo não conseguia resistir. A boca de Junior percorria todo seu corpo, sentia-se subjugado. A maré o levou ao êxtase mais uma vez.
Quando acordou, estava deitado no chão da sala. Junior estava ao seu lado, sem roupas e sem vida. O piso branco estava pintado com seu sangue. Eric não conseguia se lembrar de nada. Supôs que um humano nunca mais poderia tocá-lo e se alegrou após constar esse novo fato, entretanto, o sangue quente em suas mãos o deixou desesperado. Correu para o quarto e tomou outro de seus comprimidos. Decidiu ir falar com o tritão, ele saberia o que havia acontecido. Caminhou lentamente até o lago e disse:
— John, um homem acabou de morrer quando... —sua voz parecia falhar. Antes de conseguir recomeçar a frase a magia começou a fluir pelo lago. Encantamentos podiam ser ouvidos. Então, o tritão apareceu. Seu olhar era penetrante como um feitiço.  Sua voz fez se presente:
— Tolo homem. Achou mesmo que depois de receber minha energia poderia se envolver com alguém desprovido de uma essência mágica? Você pertence ao lago, ao mundo de Aelfus, a mim.  A essência das águas está dentro do seu corpo.
— Siga-me até meu reino e terá a liberdade que tanto deseja.  
Eric hesitava. Não conseguia ir de encontro ao seu destino. Ao perceber o medo nos olhos do humano, John continuou:        
— Confie em mim. Você e eu partilhamos da mesma magia ancestral, dessa maneira poderá respirar embaixo d’água. Não tenha medo.
Eric caminhou na direção das águas. Seu rosto estava cada vez mais branco, seu cérebro parecia entrar em transe. A correnteza era muito forte. O humano lutava contra ela, mas as pastilhas que havia tomado o deixaram mais lento, susceptível aos caprichos do lago. Seu olhar buscava sem sucesso o ser místico que o havia seduzido. Eric ouviu uma gargalhada perversa. O rosto do tritão apareceu na sua frente, seus dentes brilhavam em um sorriso  maldoso. Um grito, abafado pela corrente, foi dado pelo humano. Havia visto um grande portão prateado com runas élficas escritas em dourado. As cores pareciam ganhar formas. Imagens distorcidas começaram a se materializar: bolos, patos, médicos, perfumes, óculos, copos, faca, garganta, Junior, peixes, comprimidos, branco, camisa, colchão, enfermeiros, lago, seringas, risadas, escuridão.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Vermelho

Uma de minhas primeiras lembranças foi a de ter conhecido Léo. Minha mãe foi visitar sua amiga. Eu fui conhecer meu destino. Entrei no carro e depois de pouco tempo estávamos em uma casa branca com um portão muito alto da cor do meu sangue. Lá estava ele, correndo no jardim com seus cabelos castanhos, seu olhar penetrante e sua altivez digna de um príncipe.
 Logo que cheguei começamos a brincar em seu quarto, tudo era tão divertido, tão encantador que só conseguia pensar no quão feliz me sentia ao lado daquele menino. Depois de algum tempo fomos surpreendidos por seu pai. Ao ver o filho brincando com um coelho branco de pelúcia começou um sermão — que mais me pareceu uma aula intitulada: como um macho deve portar-se. O coelho, apesar de não ter assas, voou pela janela.  Numa tentativa de corrigir nosso jeito de brincar, fomos obrigados a ver um filme com muita luta e muita explosão, claro.
 Assim que nos deixou sozinhos senti a fúria dos olhos de Leonardo seguida de um forte empurrão que me jogou do outro lado do quarto. Seu olhar se tornava cada vez mais destruidor, enquanto os meus estavam a ponto de explodir em um choro aterrorizado. Quando viu o terror estampado na minha face, abraçou-me da maneira mais terna que alguém jamais o faria. Olhou-me irredutivelmente e falou:
— Não quero ser um homem.
 Ainda posso sentir seus braços em volta do meu corpo, a sensação de estranhamento que aquelas palavras me causavam. O calor que emanava dele esquentava meu coração, afastava o medo e me protegia. Aquele momento poderia ter durado uma eternidade, mas senti seus membros se afastando de mim lentamente. Vimos um pouco de desenhos até que minha mãe me levou embora.
A partir desse dia Léo e eu nos tornamos inseparáveis. Quando estávamos juntos, não conseguia não notar que era lindo. Sempre que estava mal um olhar dele era o suficiente para que todos os meus problemas fossem esquecidos. Seu sorriso tinha uma força arrebatadora. Nunca decifrei qual seria o segredo por trás daquele sorriso doce, calmo e poderoso.
 Não fui o único que se apaixonou instantaneamente por sua beleza e seu jeito de ser. Lembro-me que estávamos no mesmo colégio, ele era três anos mais velho, da quinta série, mas seu corpo e suas atitudes pareciam com as de um garoto da oitava. Todos os dias, esperava que o recreio chegasse logo para que pudesse ver Léo sentado no pátio comendo suas barras de cereais — sempre gostou de comidas saudáveis.  Contentava-me em estar ao seu lado, mesmo tendo que ver todas as garotas —e alguns garotos da escola— dando em cima dele.
 Sempre me protegia de tudo e de todos. Dois dias antes do meu aniversário de treze anos alguns meninos da escola me chamaram de “bichinha” e começaram a me bater. Leonardo enfrentou a todos os idiotas que nunca mais mexeram comigo.  Ao ver seu sangue quente e vermelho escorrendo no canto da boca me assustei. Não podia conceber que alguém tão avassalador fosse mortal. O deus que tanto adorara sangrava. Entretanto, não era um sangue comum, era de um vermelho intenso que me fascinava. Estava, hipnotizadamente, encarando  seu rosto, até que, com uma mescla de raiva e bondade, gritou comigo, puxou-me pelo braço e fomos para minha casa.  Subimos direto para meu quarto, comecei a cuidar de seus ferimentos.
— Você gosta de garotos? Perguntou-me.
— Não sei o que está acontecendo comigo. Não consigo parar de pensar em você. – respondi com todo o medo e sinceridade que não conseguia mais dissimular. Ele olhou bem nos meus olhos, sorriu e desceu as escadas. Fiquei perplexo! Como alguém poderia reagir daquela maneira. Seu sorriso era enigmático demais para mim, não consegui ver o que escondia, quais eram suas intenções, o que sentia por mim. 
 Mal pude dormir naquela noite. Levantei-me, coloquei qualquer roupa e fui para o colégio. A ansiedade me consumia, minha cabeça estava a mil, meu coração batia em um ritmo acelerado, minhas pernas caminhavam na velocidade da luz.  Quando percebi já estava na entrada da escola, mas não pude ver seu rosto angelical em meio à multidão. Teria que esperar até o recreio para que pudesse sentar ao seu lado e conversar, se nenhum abutre estivesse rondando — o que seria quase impossível.
As horas iam lentamente se contrapondo ao meu coração que corria para fora do meu peito. Na minha cabeça um filme repetia, em câmera lenta, a mesma cena: Léo se afastando cada vez mais de mim. Algo me tirou do transe, uma voz, que cada vez se tornava mais nítida, trazia-me para a Terra. Finalmente, consegui ouvir a pergunta de biologia que havia sido feita várias vezes, mas como estava tão embebido em meus próprios pensamentos não alcançava decifrar o significado daquelas palavras vazias. A professora me perguntou se estava bem. Como poderia estar bem? Havia dito para a pessoa que amava toda a verdade e, inseguro, esperava as consequências de meus atos inconsequentes.
O fim da aula chegou e com ele a esperança de ver Léo sentado em um banco comendo suas barras de cereais. Infelizmente, minhas expectativas foram frustradas, ele não estava lá. Uma semana havia se passado sem que Leonardo fosse para a escola. O medo de vê-lo só não era maior do que o de perdê-lo, assim que, me enchi de coragem e fui para sua casa.
Era um sábado fresco com nuvens que brincavam no céu. Não tive tempo de olhar para elas até que cheguei no portão, vermelho como meu medo, e percebi que todas as nuvens pareciam coelhos. Toquei o interfone, sua mãe me avisou que ele estava no quarto.  Apreensivo, subi as escadas. Tudo era vermelho: meus olhos, minha boca, meu coração, meu sangue, sua porta, suas paredes, seu rosto, seu olhar.  Porém, todos os meus medos foram espantados pelo sorrido do Léo. Então, de maneira amena, falou:
— Não deixei de pensar naquilo, Vi. — acariciou meu rosto e continuou com a voz entrecortada — Às vezes me pego pensando em sua boca, em seu corpo, no seu jeito avoado e doce.
De repente, vi que seus olhos exerciam uma forte atração sobre os meus. Suas mãos tomaram minhas costas e seus lábios deslizaram sobre os meus. Senti uma felicidade que não havia experimentado até aquele momento. Sua boca era úmida e doce, seu cheiro lembrava a perdição, seus braços poderiam acabar com qualquer mortal. Entretanto, sabia dosar a força de seu abraço — e como sabia. Depois que o beijo acabou, percebi que não deveria temer sua força física, mas sim a devastação do seu olhar de górgona. Encarei, petrificado, seus olhos, formulei uma pergunta em minha cabeça, quando estava a ponto de irromper na minha boca fomos interrompidos pelo barulho de sua mãe subindo as escadas, abrindo a porta e dizendo: 
— Filho, você precisa tomar banho para ir à natação. E, Vinícius, sua mãe veio te buscar.

domingo, 29 de maio de 2011

A escola maneirista


Ninguém se torna gay, já se nasce assim. Muitos dizem que o psicológico interfere na nossa orientação sexual, outros afirmam que a criança é ensinada a ser heterossexual, sinto-me no direito de discordar. Na minha casa o machismo e a heterossexualidade sempre foram lecionados. Tive um bom professor que me iniciou na arte de pensar que a mulher desempenha um papel submisso, resignado e, às vezes, escravo de servir e proporcionar prazeres ao homem. 

Essa doutrina acarreta uma série de preconceitos relativos à orientação sexual. Se a mulher desempenha um papel submisso, logo o varão que vai para a cama com outro varão equipara-se a mulher. Dessa maneira, ao colocar-se em uma situação de similaridade com a fêmea, faz com que haja uma falha na estrutura de poder outorgada pela dominação machista na nossa sociedade. Portanto, esse macho que deveria ser dominante, bruto, másculo, ativo, entretanto possui algum tipo de “defeito” e não consegue ser fiel suas supostas características inerentes ao sexo, é visto como um fraco desprezível pelos outros machos que não admitem essa distorção da estrutura de poder do machismo. 

Antes de continuar, gostaria de esclarecer que não concordo que características masculinas ou femininas estão vinculadas biologicamente ao sexo, mas sim à forma com que são construídas as identidades sociais atribuídas a cada gênero. Ou seja, por exemplo, a docilidade feminina não passa de uma convenção estabelecida socialmente, da mesma forma que a virilidade não é dada aos homens por serem do sexo masculino, essa qualidade lhes é atribuída por convenções sociais.

 Voltando ao meu templo edificador de conhecimentos, aprendi também que o homem precisa conquistar muitas mulheres para demonstrar sua masculinidade. Para que sua insegurança seja apagada, alguns tipos do modelo “Don Juan moderno” tem a nítida necessidade de “comer” todas, de seduzi-las, de abandoná-las, pois uma mulher que cede aos prazeres da carne é promiscua e não merece que um homem a despose. Num mundo idealmente machista, todas as fêmeas consideradas como “devassas” deveriam estar reclusas em um lugar no qual serviriam aos homens de maneira ainda mais humilhante e objetificada: bordel. Nesses guetos as mulheres que não são puras nem aptas para o casamento divertem aos machos vendendo seus corpos e suas mentes, expostas a todo tipo de sorte, violência, degradação.
Tudo o que é “estranho” aos comportamentos impostos pela sociedade tem que se manter em guetos, afastar-se, marginalizar-se. Da mesma maneira que as mulheres que não cumprem seu papel de submissas, puras, castas na nossa sociedade machista são reclusas a marginalidade, o homem que se atreve a exercer o papel convencionalmente feminino é marginalizado, prejulgado, subjugado.

 Dessa falha de poder nasci. Por muito tempo escondi de mim mesmo todos os sentimentos que tive por pessoas do mesmo sexo. Não saberia explicar o motivo real de ter escolhido, ainda que subconsciente, ocultar minha orientação de todos, inclusive de mim mesmo. O entorno machista, o medo da não aceitação, os falsos ensinamentos religiosos, que até então não eram sequer questionados, vem a minha mente como possíveis causas do meu obscurantismo. Toda essa imersão na ignorância durou muitos anos. Até que em um belo dia me dei conta que realmente gostava de homens. Já estava na universidade. Lembro-me que decidi contar minha novidade para uma amiga, que me olhou com ternura, e disse: “Lindo, eu já sabia! Acho que você era o único que não.” Apos esse episódio resolvi analisar minha história de negação dos fatos. Realmente, nasci gay. Desde criança me interessava por garotos, mas o medo de quebrar essa estrutura de poder machista fez com que apagasse, reprimisse, subjugasse meu verdadeiro eu. 

Hoje com minha relativa experiência, vivencia julgo-me capaz de sentir vergonha por delimitar-me e nojo por essa sociedade machista ridícula em que estou inserido. Uma sociedade na qual uma mulher é espancada a cada 15 minutos por seus “companheiros”, vários homossexuais são espancados por grupos neonazistas. Orgulho-me por não ter sido um bom aluno da escola do machismo e por dedicar-me muito à escola grega.  Depois de 23 anos vividos aprendi que sou completo por não esconder quem sou e não ter a vergonha de ser feliz.