Uma de minhas primeiras lembranças foi a de ter conhecido Léo. Minha mãe foi visitar sua amiga. Eu fui conhecer meu destino. Entrei no carro e depois de pouco tempo estávamos em uma casa branca com um portão muito alto da cor do meu sangue. Lá estava ele, correndo no jardim com seus cabelos castanhos, seu olhar penetrante e sua altivez digna de um príncipe.
Logo que cheguei começamos a brincar em seu quarto, tudo era tão divertido, tão encantador que só conseguia pensar no quão feliz me sentia ao lado daquele menino. Depois de algum tempo fomos surpreendidos por seu pai. Ao ver o filho brincando com um coelho branco de pelúcia começou um sermão — que mais me pareceu uma aula intitulada: como um macho deve portar-se. O coelho, apesar de não ter assas, voou pela janela. Numa tentativa de corrigir nosso jeito de brincar, fomos obrigados a ver um filme com muita luta e muita explosão, claro.
Assim que nos deixou sozinhos senti a fúria dos olhos de Leonardo seguida de um forte empurrão que me jogou do outro lado do quarto. Seu olhar se tornava cada vez mais destruidor, enquanto os meus estavam a ponto de explodir em um choro aterrorizado. Quando viu o terror estampado na minha face, abraçou-me da maneira mais terna que alguém jamais o faria. Olhou-me irredutivelmente e falou:
— Não quero ser um homem.
Ainda posso sentir seus braços em volta do meu corpo, a sensação de estranhamento que aquelas palavras me causavam. O calor que emanava dele esquentava meu coração, afastava o medo e me protegia. Aquele momento poderia ter durado uma eternidade, mas senti seus membros se afastando de mim lentamente. Vimos um pouco de desenhos até que minha mãe me levou embora.
A partir desse dia Léo e eu nos tornamos inseparáveis. Quando estávamos juntos, não conseguia não notar que era lindo. Sempre que estava mal um olhar dele era o suficiente para que todos os meus problemas fossem esquecidos. Seu sorriso tinha uma força arrebatadora. Nunca decifrei qual seria o segredo por trás daquele sorriso doce, calmo e poderoso.
Não fui o único que se apaixonou instantaneamente por sua beleza e seu jeito de ser. Lembro-me que estávamos no mesmo colégio, ele era três anos mais velho, da quinta série, mas seu corpo e suas atitudes pareciam com as de um garoto da oitava. Todos os dias, esperava que o recreio chegasse logo para que pudesse ver Léo sentado no pátio comendo suas barras de cereais — sempre gostou de comidas saudáveis. Contentava-me em estar ao seu lado, mesmo tendo que ver todas as garotas —e alguns garotos da escola— dando em cima dele.
Sempre me protegia de tudo e de todos. Dois dias antes do meu aniversário de treze anos alguns meninos da escola me chamaram de “bichinha” e começaram a me bater. Leonardo enfrentou a todos os idiotas que nunca mais mexeram comigo. Ao ver seu sangue quente e vermelho escorrendo no canto da boca me assustei. Não podia conceber que alguém tão avassalador fosse mortal. O deus que tanto adorara sangrava. Entretanto, não era um sangue comum, era de um vermelho intenso que me fascinava. Estava, hipnotizadamente, encarando seu rosto, até que, com uma mescla de raiva e bondade, gritou comigo, puxou-me pelo braço e fomos para minha casa. Subimos direto para meu quarto, comecei a cuidar de seus ferimentos.
— Você gosta de garotos? Perguntou-me.
— Não sei o que está acontecendo comigo. Não consigo parar de pensar em você. – respondi com todo o medo e sinceridade que não conseguia mais dissimular. Ele olhou bem nos meus olhos, sorriu e desceu as escadas. Fiquei perplexo! Como alguém poderia reagir daquela maneira. Seu sorriso era enigmático demais para mim, não consegui ver o que escondia, quais eram suas intenções, o que sentia por mim.
Mal pude dormir naquela noite. Levantei-me, coloquei qualquer roupa e fui para o colégio. A ansiedade me consumia, minha cabeça estava a mil, meu coração batia em um ritmo acelerado, minhas pernas caminhavam na velocidade da luz. Quando percebi já estava na entrada da escola, mas não pude ver seu rosto angelical em meio à multidão. Teria que esperar até o recreio para que pudesse sentar ao seu lado e conversar, se nenhum abutre estivesse rondando — o que seria quase impossível.
As horas iam lentamente se contrapondo ao meu coração que corria para fora do meu peito. Na minha cabeça um filme repetia, em câmera lenta, a mesma cena: Léo se afastando cada vez mais de mim. Algo me tirou do transe, uma voz, que cada vez se tornava mais nítida, trazia-me para a Terra. Finalmente, consegui ouvir a pergunta de biologia que havia sido feita várias vezes, mas como estava tão embebido em meus próprios pensamentos não alcançava decifrar o significado daquelas palavras vazias. A professora me perguntou se estava bem. Como poderia estar bem? Havia dito para a pessoa que amava toda a verdade e, inseguro, esperava as consequências de meus atos inconsequentes.
O fim da aula chegou e com ele a esperança de ver Léo sentado em um banco comendo suas barras de cereais. Infelizmente, minhas expectativas foram frustradas, ele não estava lá. Uma semana havia se passado sem que Leonardo fosse para a escola. O medo de vê-lo só não era maior do que o de perdê-lo, assim que, me enchi de coragem e fui para sua casa.
Era um sábado fresco com nuvens que brincavam no céu. Não tive tempo de olhar para elas até que cheguei no portão, vermelho como meu medo, e percebi que todas as nuvens pareciam coelhos. Toquei o interfone, sua mãe me avisou que ele estava no quarto. Apreensivo, subi as escadas. Tudo era vermelho: meus olhos, minha boca, meu coração, meu sangue, sua porta, suas paredes, seu rosto, seu olhar. Porém, todos os meus medos foram espantados pelo sorrido do Léo. Então, de maneira amena, falou:
— Não deixei de pensar naquilo, Vi. — acariciou meu rosto e continuou com a voz entrecortada — Às vezes me pego pensando em sua boca, em seu corpo, no seu jeito avoado e doce.
De repente, vi que seus olhos exerciam uma forte atração sobre os meus. Suas mãos tomaram minhas costas e seus lábios deslizaram sobre os meus. Senti uma felicidade que não havia experimentado até aquele momento. Sua boca era úmida e doce, seu cheiro lembrava a perdição, seus braços poderiam acabar com qualquer mortal. Entretanto, sabia dosar a força de seu abraço — e como sabia. Depois que o beijo acabou, percebi que não deveria temer sua força física, mas sim a devastação do seu olhar de górgona. Encarei, petrificado, seus olhos, formulei uma pergunta em minha cabeça, quando estava a ponto de irromper na minha boca fomos interrompidos pelo barulho de sua mãe subindo as escadas, abrindo a porta e dizendo:
— Filho, você precisa tomar banho para ir à natação. E, Vinícius, sua mãe veio te buscar.